segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

tudo o que aprisiona me assusta.
e tudo aprisiona.
porque é assim a vida.
uma indomável vontade de rebelar-se.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

2

quem errou?
quem sentiu primeiro?
quem venceu o medo?
quem viveu como viveu?
sou seu?
quem acertou?

não impessa a si mesma de sentir-se satisfeita.
sua liberdade é o que resta a você ou de você?

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Oralidade

ela permite a entrada
debaixo de seu próprio nariz
não há parte mais íntima que o céu da boca.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

dizer "eu te amo" é mais difícil que desvirginar uma moça.

sábado, 28 de novembro de 2009

Todos precisam de alguém, pois viver sozinho é ameaçador. É um temor de acordar e não ter a quem desejar bom dia; sentir o calor do meio-dia tomar seu corpo, e não ter a quem dizer que está passando mal de tanto calor; e, quando a noite chega, tossir e não ter a quem se silenciar.
Mas ao mesmo tempo, precisamos da solidão. O silêncio ordena o pensamento, a paz. Todo relacionamento humano é conflito, em todos os sentidos. Descobrir. Intenção, contenção de gestos, até que um prossiga numa sucessão de soluços.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

condição

se pudesse, evitaria o plantio de árvores. elas tomam o espaço que há entre nós.
se desse, o mundo era plano. não daríamos voltas e sempre nos encontraríamos.
se quisesse, e quero, faço agora mesmo um acordo entre palestinos e israelenses. eles param de brigar e deixam a gente aqui fazer aquela tão sonhada viagem pra Faixa de Gaza em paz.
se fosse possível, faria o impossível. mas aí não téríamos mais tempo para nós, tamanho seria o assédio da imprensa ao querer falar com o cara que fez o impossível!
se o ser humano pudesse voar, mesmo assim não faria isso. pegaríamos um avião vazio e confortável pra irmos pra qualquer lugar.

mas as condições, se não fossem tão difíceis, não estaríam nesse texto. Que é, assim, pra sonhar.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

palavra

Estou impedido de prosseguir num relato. As palavras não suportam o que não pode ser dito, pois querem existir. Diante de quem me quer ouvir, eu não quero ser visto. As impressões – por eu ser só um ruído quando me posto na frente daqueles olhos – são somente avisos, sugestões para as quais não se dedica um minuto de pensamento.
Entre nós dois, não deve existir tema que faça ambos desgastarem-se numa reflexão sem fim. Tudo deve parecer ter certeza; não precisam, nós, de certeza, então? O conflito será cuidadosamente controlado; e o que virá – lágrimas, sorrisos, soluços e silêncios – durará até o último copo da noite.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Catarina um

Catariana é o motivo disso tudo, mas do avesso. Pois é o fato de ela não estar nem aí para o que escrevo que me faz escrever aqui. Se um dia Catarina resolver dar bola pra estas linhas, perco a motivação. E perco, de quebra, Catarina.

Mas seu nome é seguido por Aragão, o que, ao meu ver, não muda em nada o que disse anteriormente sobre Catarina. E foi pouca coisa. Falei apenas de seu descaso com relação ao meu texto, ao meu medo e ao meu prazer. Ela está se lixando.

Pois jamais retorna os meus e-mails.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

seu sonho

Silêncio. Quietou-me sem querer, aboliu de mim a ternura comedida e, esbravejando, inundou de não se sabe o que tudo o que é vítreo. Sem quebrar nada, sumiu com tudo o que queria ser visto. E é do vidro que me fere, pontiagudo e sedutor, que partem mil afagos. São de mentira, as carícias, o amor e os aplausos.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

untitled #1

É um êxtase que em sua incontinência
Faz provocar um sufoco abafado de libertação
É e deve ser raiva!
Pois é aquilo que só existe no âmbito da destruição
Só pode quando não se quer que se possa mais coisa qualquer

Aparece uma mulher
Pobre de tanto que se entregou aos outros
Jamais segurou um diamante que tivesse sido escolhido para ela
E nunca segurou nada que a ela tivesse sido entregue
Não há presente pois ela o é

Toda simulação é ruído
E a realidade precisa ser surda!

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Não matem Svetlin

À tarde era difícil alguém bater à nossa porta. Mesmo quando um de nós estava em casa no período entre uma da tarde e sete da noite, raramente podia ser surpreendido por uma visita. De quando em quando alguém lá do Sonic dava as caras, carregado de cerveja, pois estava off. Tão esporadicamente o carteiro aparecia, perguntando se ali moravam os russos, ao que sempre respondíamos que não mais. E, como o cometa, era Svetlin, nosso supervisor búlgaro de quase dois metros de altura e sorriso engessado.

Era por isso que, naquele dia de sol, raro naquele inverno que nos surpreendia com três ou quatro graus Celsius negativos, eu estava de folga do trabalho e lavava a louça com o rádio ligado bem alto. E irritado, porque nossa condição miserável nos obrigava a lavar os descartáveis, que estavam já rachados. Era um prato vermelho de plástico pra cada um, acompanhando o kit também um garfo e uma faca tortos e um copo de acrílico; só. Não esperava ninguém àquela hora, iria dar uma geral na casa, exceto no quarto da Leidy, que era de uma bagunça tão complexa quanto assustadora.

Enquanto tentava desentupir a pia da cozinha - coisa que jamais conseguiríamos – e retirar a água parada com a ajuda de uma caneca, não ouvi a campainha, mas os murros que davam na porta. Primeiro, olhei, lá da cozinha mesmo, a não vi ser algum através da estreita janela ao lado da porta. Voltei ao serviço, e voltaram junto os murros. Larguei caneca, água suja e fui ver o que era, afinal, por se tratar de casa de alvenaria, feita de madeira, qualquer pássaro andando no telhado ou cutucando algo lá em cima já era motivo para sons irritantes. Mas não era pássaro, senão Svetlin. Que voltava correndo do carro, pois tinha esquecido de pegar alguma coisa.

Seu inglês era fácil de entender, apesar do forte sotaque, que o fazia pronunciar os “erres” de maneira engraçada. Puxava tanto os “erres” que parecia aquele maluco do Galvão Bueno narrando um jogo de futebol. Logo tratei de ensinar-lhe a dizer “Ronaldinho”, “Rivaldo”, etc. Era assim que, na casa, adotamos como bordão a expressão “call me tomorrrrow”, assim mesmo, puxando o “erre” lá do fundo. Fora isso, era um cara legal, que atrasava nossos pagamentos e que, quando atendia aos nossos telefonemas, respondia, com prestaza, “call me tomorrow”, o que desencadeava numa seqüência interminável, nos dias seguintes, de telefonemas e “call me tomorrows”.

Naquele dia, Svetlin precisava de uma mãozinha. Os outros estudantes latino-americanos que também moravam e trabalhavam em Pineville haviam fugido e agora que a casa estava desocupada, o búlgaro de sorriso engessado precisava fazer a mudança dos poucos móveis, para entregar a casa ao proprietário. Eram apenas algumas mesas e cadeiras, e alguns colchões e estrados, que deveriam ser reacomodados nas outras duas casas de estudantes latino-americanos que haviam restado, sendo uma a minha. Svetlin queria minha ajuda. Sim, o cara que estava com meu pagamento atrasado. E, agora, na minha frente, fazia chantagem me dizendo que iria deixar eu ficar com mais cadeiras.

Tive vontade de responder “call me tomorrow”. Mas somente comentei que eu estava ocupado, pois era a doméstica da vez. Ele insistiu, fez cara de coitado, quebrando, incrivelmente, o gesso de seu sorriso. Até que me ofereceu dinheiro... Pensei em propina, pois para nós, brasileiros, se alguém nos pede um favor e oferece dinheiro em troca, primeiro pensamos que se trata de safadeza. Mas não é. Svetlin disse que era justo me pagar, pois eu estaria trabalhando para a Hospitality, a empresa que “cuidava” de nós lá nos EUA e para a qual ele vendia sua “força”. Aceitei, não sem antes perguntar “how much?”. Ele voltou a engessar aquele sorrisão e respondeu “ask me tomorrow”. E fomos alugar um caminhão lá no centro.



continua...

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

I left those shadows outside
Trying to remember if I still can drop out of this fucking place
It’s like if time could stop everytime I breathe
That’s why I’ll never change after all

Here all the walls to hide you
Cause I’m rounding your dreams
Looking for exact words to describe my fears

sábado, 1 de agosto de 2009

Mudança de hábito

Olha, certeza, certeza mesmo não posso garantir. Sabe, tem momentos de uma noite que simplesmente apagam em nossa memória, e aí você passa a receber um monte de versões do que pode ter acontecido, e fica preocupado ao saber que os relatos partem de gente que também sofreu algum tipo de amnésia durante a mesma noite que você, ou que beijou traveco pensando que se tratava de uma loirassa. É como se aquelas poucas horas de sua vida se tornassem um livro aberto, tipo aqueles que se fazem presentes em exposições de arte, recebendo canetada uma atrás da outra de um bando de gente que, na maioria das vezes, não entendeu porra nenhuma do que viu, mas não deixa escapar a oportunidade de prestar alguma homenagem pro artista e assinar em baixo.

Não que eu tivesse bebido. Não que eu tivesse me drogado. Longe disso. Mas acho que pelo menos uma dessas possibilidades foi a responsável pela minha súbita deficiência, a ser, não lembrar nada do que se passou entre as onze e meia da noite do dia 15 de julho – hora em que, de acordo com testemunhas, já fazia mais de meia hora que dizia que amava todo mundo – e as quatro da tarde do dia seguinte - hora em que, de acordo com testemunhas outras, eu acordava me queixando de forte dor de cabeça, culpando, com veemência, o travesseiro.

Ouvi uma porção de reconstituições do que ocorreu. É horrível não poder, nessas horas, duvidar da palavra do outro, pois você simplesmente ouve as pessoas contarem histórias ditas reais tão absurdas, surreais, inimagináveis e, muitas vezes, escatológicas tendo como personagem principal você mesmo, que ou você acredita, ou manda matar todas as testemunhas, fazendo calar para sempre essa poderosa voz que insiste em queimar seu passado ao longo das próximas gerações.

Mas o que dizem por aí é que, não contente com o fato de ter recebido uma dura da irmã-diretora lá do convento naquela manhã, quando me dirigia para o congresso, devido ao fato de ter chegado tarde na noite anterior, guardei o rancor no meu peito até não poder mais agüentar e, já presente no porão do Alemão, balada tradicional de Manaus, afaguei tudo o que de pior sentia a respeito da Igreja Católica e suas freirinhas com vodka, cerveja e tequila barata. Por volta das duas da manhã, apaguei. No caminho de volta, já dentro do celta que alugáramos dois dias antes, recuperei parcialmente o estado de vigília e, ao nos aproximarmos da entrada do convento onde estávamos hospedados, prontifiquei-me a insultar qualquer bata que me aparecesse na frente. Com o carro parado na frente da entrada que leva aos dormitórios, cumprimentei uma das irmãs e disse que, ali, ninguém estava alterado não, senhora! Conclui com a seguinte avaliação: vocês, noviças, precisam beber mais e, quem sabe, um p... desse tamanho!

sábado, 4 de julho de 2009

A minha vez

Decerto que jamais agirá daquela forma novamente
Pois não é simpático a tamanha manifestação de ignorância assim
E fará um esforço, nem que mesmo em vão, para recuperar aquele semblante
Que nunca teve, mas sempre imaginou, de quem responde à vida com um grande sim

Não fugiu, mas promete que será agora que o fará,
De uma excelente chance para escapar
Consta que diante daquilo que o fez recuar insistentemente durante too esse tempo
Surpreenderá com um grande golpe: não se escoderá atrás de sua cara moldada no cimento

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Início

Nessa época do ano, espero que minha retirada possa enfim me colocar por entre aquelas pessoas, mudas como nunca se viu, pois são mudas de tanto que gritam. No meio, manchado de terra em todo corpo, estou eu, tentando calar suas vozes.

Mas elas são várias; formam uma só, que invade tudo.

Até que um velho diz:

_ Domine esta porra!